domingo, 25 de agosto de 2013

Das negativas

2B,4B, canetinhas aquareláveis e lápis de cor - Machado para um projeto da UFPR


Das negativas

Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os sucessos narrados na primeira parte do livro. O principal deles foi a invenção do emplasto Brás Cubas, que morreu comigo, por causa da moléstia que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro lugar entre os homens, acima da ciência e da riqueza, porque eras a genuína e direta inspiração do Céu. O acaso determinou o contrário; e aí vos ficais eternamente hipocondríacos.
Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de D. Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: 
— Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.
 (Machado de Assis - Memórias Postumas de Brás Cubas) 

Um comentário:

  1. Isa, acho que esse é o meu post preferido desse blog. Incrível como você conseguiu encaixar perfeitamente o título com o desenho e o texto. haha
    Bem, eu tive sorte e, por algum milagre ou algo do tipo, eu me interessei por Machado logo no início do Ensino Médio, antes mesmo de ser passado em sala de aula. Li Dom Casmurro e Memórias Póstumas, mas acho que do segundo eu não absorvi muita coisa, pois nem me lembro direito da história. Enfim, tenho que relê-lo. (:
    bjos

    ResponderExcluir